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Não parece, mas tudo que estamos vivendo hoje se transformará em lembranças. Nostalgia. Memórias perdidas em gavetas. Em compartimentos bagunçados. Registros do ontem que formam o amanhã. Trechos de fases que trouxeram bons e maus momentos. Histórias nossas e nossas histórias dos outros. Em todas as partes, rostos, vozes, expressões. Faces. Abraços, sorrisos. Uma palavra que, talvez, ainda ecoe dentro de nós. Um toque. Os nossos traços perdidos por estradas.

Ali, à frente, o professor esbraveja com os alunos de não mais de 14 anos. Todos risonhos, enfadados com as palavras do homem. Estavam no espaço por obrigação. Consideravam-no tedioso. Mas ouviam. E riam das tentativas de ser engraçado. Ou das implicâncias com as meninas e os meninos. Encontravam diariamente novos aspectos ou expressões para risadas a mais. Em uma manhã de aula, com todos dispersos, ele levantou os braços, estalou os dedos e chamou a atenção da garotada, que não se calava. Enfurecido, reclamou da desobediência e do descaso e bradou:

— Hello, 2007! — os dedos estalavam, e os alunos riam do repentino (quase) acesso de raiva do professor. A expressão virou um bordão entre os estudantes naquele ano.

Naquele momento, a menina, que se sentava constantemente na primeira cadeira, próxima ao quadro, também riu. E aquela seria mais uma manhã de aula, em uma escola do centro da cidade, na qual permaneceu por quatro anos. Era mais um dia. Mais uma data imperceptível. Sem grandes marcas.

Mas a vida assim se faz. Com dias supostamente irrelevantes.

Meses depois, ainda sentada nas cadeiras da frente das salas de aula, experimentou seu primeiro contato com a literatura. Um livro para ser o trabalho do bimestre. A professora de português teve a ideia, que a assustou inicialmente. “Quem vai querer ler o que eu escrevo? E o que vou escrever?” foram perguntas que passaram pela cabeça da adolescente perdida em falas e personagens.  E se envergonhou ao entregar o resultado à professora.

Não imaginava, naquele período em que se dedicou ao trabalho, o que aquela memória significaria no futuro. O quanto um simples dia poderia determinar novos caminhos. Mas, na cabeça dela, eram somente mais uns dias. Mais datas imperceptíveis. Sem grandes marcas.

Sentada sob uma árvore, perto de um ponto de ônibus, ela observa o movimento de carros, motos e bicicletas. De diversas direções, é atingida: pelo asfalto, o calor; pelo céu, os raios de sol; pelas lembranças, as histórias que a levaram diretamente à pedra sob a árvore perto do ponto de ônibus. E a certeza de que este, por mais simples que pareça, será mais um momento na marca da memória.

As ruas da cidade

As ruas da cidade

 

Vozes ecoavam no Centro.

Naquele dia, havia acabado mais cedo as atividades no trabalho. Era um dia chuvoso, exatamente como gostava. Sentia prazer ao admirar o cenário acinzentado que dominava o ambiente. Resolvera caminhar pelas ruas. Há tempos, não olhava os rostos. Há tempos, não ouvia os tons. Eles dominavam o seu imaginário, mas pareciam cada vez mais afastados de sua realidade.

Andava vagarosamente pelas vias e vielas que se conectavam, tomadas por pés, pernas e passos estranhos e conhecidos.

Às vésperas do Natal, observava as lojas da área central. Roupas, bolsas, sapatos, sacolas de compras, pessoas felizes com suas aquisições. Crianças, adolescentes, adultos e idosos. Todos pareciam estar em perfeita harmonia. Típico clima festivo e fugaz. Entrava em diversos estabelecimentos comerciais. Parava em frente a livrarias. Adorava comprar e ganhar livros. Gostava, também, de DVDs e CDs. Anacrônica. Foi em busca de locais que pudessem vendê-los. Queria apenas ver. Pensava em aproveitar o tempo livre para isso.

Neste ano, tinha outras prioridades. Um ano de surpresas. Desejava presentear os que chegaram há pouco tempo e os que faziam parte da sua história desde o primeiro dia de sua vida. Com os dedos no bolso, movimentando-se à medida que andava, seguia pelas ruas da cidade. Histórias e memórias, suas e de outrem, faziam parte do trajeto. Via-se pequena, de mãos dadas com a mãe, passeando. Branquinha, gordinha e capaz de atrair olhares atentos e curiosos de pessoas que, geralmente, paravam para elogiar, “que lindinha”, e, em seguida, apertar a sua bochecha. A reação da então menina era de chateação. Dizia a todos que o gesto a incomodava. Doía.

Passos à frente. Uma lanchonete, conhecida por vender produtos naturais, era parte do percurso da infância. Comprava, junto à mãe, salgados. Um, ela comia no local. Os outros, distribuídos em pacotes, a garotinha levava para casa, onde se deliciaria nas tardes de chuva e sol; férias e aula; sob cobertores ou dentro da piscina. Caminhava pelas ruas, agora, de mãos dadas com suas vivências infantis e adolescentes. Por ali, onde fora feliz e triste, também havia se questionado sobre muitas coisas. Certas manhãs e tardes, ela abria mão de alguns minutos do seu dia para colocar o corpo em movimento e abafar os pensamentos incontroláveis.

Fones de ouvido. Músicas no volume máximo. Analisava expressões. Pensava no que carregavam aquelas pessoas. Que verdades seriam as destes homens e mulheres? Era uma tentativa de lançar suas dúvidas e medos para outro plano. Por breves minutos, alcançava o seu intento. Apesar das necessidades de manter-se afastada, o relógio controlava seu tempo. Logo, tinha que retomar a rotina.

Ainda pelas ruas, olhava para trás e se recordava do passado. Hoje, sentia-se alegre por não ser obrigada a se esquivar. Pela primeira vez, estava em paz consigo mesma. Na Praça São Salvador, coração de Campos, continuou a peregrinação por diferentes lojas. Era Natal, pensava, e queria agradar àqueles que amava. Pesquisou preços e presentes, enquanto as ideias se perdiam. Olhava. Procurava. Desejava localizar algo, mas não sabia exatamente o quê. E, agora, não havia importância.

Parou sob o céu acinzentado. Os primeiros sinais de chuva apareciam delicadamente. O coração parecia alentado à medida que as nuvens seguiam seu tradicional fluxo. Era uma das imagens de que mais gostava. Resolvera voltar ao ponto de partida. Mãos nos bolsos e sempre em movimento. Companheiras de devaneios. Retomou o caminho de origem. Ao passar pela praça central, escutou uma voz.

“Moça.”

Mesmo sem especificar a quem se referia, sabia que era ela a chamada.

“Moça.”

Persistente. Não queria olhar para trás, embora soubesse exatamente a localização do som. Mas será que a voz se dirigia a ela?

“Moça com a blusa da Janis Joplin!”

Não teve mais dúvidas. Usava a camisa, uma das que mais gostava. Não havia outra ao redor. Neste momento, o grito era distante. Distantes, também, eram seus pensamentos. Parte dela ficara presa àquela voz desconhecida que a fez passear interiormente por caminhos alternativos, encontrando possíveis diálogos amigáveis. Ou desconexos. Ou troca de palavras educadas. Ou apenas um aceno.

“Desculpe, moço, pelo mau jeito. Um dia, a gente se esbarra.”

16

 

A persistência da memória

Obra “A persistência da memória” (1931), de Salvador Dalí

 

Sexta-feira. Duas e quarenta e cinco. O último pedaço de frango escapou mais uma vez do garfo, que o espetou em seguida. Com as mãos brancas, ele levou o alimento à boca e depositou os talheres sobre o prato.

Em 15 minutos, estaria em casa. Expectativas para o final de semana. Levantou-se vagarosamente. Colocou o guardanapo sobre a mesa. Empurrou, com a panturrilha, a cadeira branca de plástico, levemente manchada. Não reparou o homem que havia se posicionado à sua frente.

Ergueu a cabeça para pedir licença e desejar-lhe um bom fim de semana, com seu sorriso torto de malandro.

Respirou.

Abriu a boca.

A cabeça e a arma.

A arma na cabeça.

Suspiro.

Amigo, leve o que quiser, mas não atire.

O barulho do gatilho. Eco do pedido não atendido. O sangue jorrando enquanto a mão furtiva roubava o celular e o dinheiro do almoço. Os olhos parados diante de outros olhos apavorados e questionadores e revoltados pelo homem que havia se transformado em estatística.

O Brasil que mata

Manhã de quinta-feira. Ou sexta. Quem sabe sábado? Os dias ecoam uma igualdade sem fim. Primeiro, acordar. Depois, forças para levantar da cama e encarar o sol, que, sem seguir as estações do ano, parece pronto para brilhar o ano inteiro. Indiferente aos apelos mais sensíveis. Tudo igual nesta segunda. Terça? Era uma quarta, talvez. Caminhar em direção ao computador para olhar as notícias. Mesmo com o passar do tempo, elas ecoam a mesma igualdade dos dias sem fim.

Mas resta a esperança de encontrar, entre aquelas linhas cuidadosamente elaboradas, fatos que renovem a fé na humanidade. O navegador indica um site de pesquisas. Os dedos tamborilam os nomes dos portais de notícias sobre a cidade. Política, cultura, economia. Mas os olhos, sem que haja consciência sobre os atos, se detêm nos casos policiais. Tradicionais calafrios percorrem o corpo. Embora sejam incômodos, não são mais assustadores. Afinal, essas histórias que se repetem incessantemente fazem parte dos dias que ecoam a mesma igualdade. Sem fim.

A seta do mouse paira sobre o título da matéria. Nele, o jornalista informou que um jovem morreu a tiros. Mas esse rapaz não foi assassinado na semana passada? E o da semana retrasada? Lembrou-se do eterno retorno. “Pensamento elevado, o eterno retorno também é o mais profundo, o mais abissal, pois conduz à visão da eterna repetição sem sentido ou fim de tudo”, lembrou-se de um trecho que leu nos Cadernos Nietzsche, durante uma pesquisa sobre o tema.

Outro homem aparece em destaque por ser suspeito de estupro. A vítima: sua enteada, de cinco anos de idade. “O homem nasce bom, mas a sociedade o corrompe”, disse Rousseau. Questionamentos incontroláveis dominam a mente. Não se pode corromper um indivíduo e levá-lo a atitudes tão desprezíveis se sua índole for boa. Há pouco tempo, casos semelhantes veicularam na mídia. Diversas situações dessa natureza são escritas, lidas e ouvidas diariamente. E o homem, Rousseau? O que é o homem?

Os olhos percorrem o site. Logo adiante, o feriado termina com quatro homicídios. Quatro pessoas mortas em menos de 24 horas. Tiros e facadas. Até o momento, setembro registra, em média, um assassinato por dia na cidade. Prisões e apreensões também preenchem as páginas dos jornais.

Entre os fatos do dia, uma notícia desanuvia a tensão que consome o leitor. Um rapaz, agredido em uma cidade próxima, recebeu alta da Unidade de Terapia Intensiva (UTI) de um hospital estadual. Ele ficou internado por um mês após ser confundido com um assaltante. Depois de discutir com 15 moradores do município, ele foi espancado. Quinze pessoas envolvidas

Quinze homens

E o homem, Rousseau?

 

 

 

“Tem um Brasil que é próspero

Outro não muda

Um Brasil que investe

Outro que suga

Um de sunga

Outro de gravata

Tem um que faz amor

E tem o outro que mata”

 

 

Esquinas

Imagem: Pixabay

 

Meio da tarde. Os pássaros sobrevoam a Praça São Salvador, rodeada por homens, mulheres e adolescentes que, em seus skates, competem em uma realidade quase paralela. Disputam espaços e atenções dos passantes. Poucos se concentram na cena montada por eles. Passam, assim como passam por outros tantos pés, pernas, braços e mãos carentes. Pedintes. Atravessam a rua e encontram o abrigo da história da cidade, com seus apetrechos e guias orientando o passeio. Mas, do lado de fora, eles optam por sua caminhada.

Nas esquinas, bares, cafés, bancos. Novos rostos. Homens, mulheres. Conversam, riem, contam causos e anedotas. Determinados trechos são dominados por pessoas mais velhas que cavam, na memória, as histórias que podem ser partilhadas. As outras permanecem silenciadas, escondidas por trás de olhos que ainda buscam novas experiências. A curiosidade é rapidamente atraída pelos transeuntes, mas logo é desviada por outro chamado para um papo na Rua do Homem em Pé.

A poucos metros dali, uma menina está parada ao lado da saída de um banco. Em sua mão, um pacote de mariolas. Custam centavos. A timidez na abordagem desfavorece a venda do produto. Aproximadamente dez anos. O rosto de criança carrega uma expressão adulta. Cansaço. As pessoas circulam com pressa e nem a olham. Para ser vista, ela entra no local. Aproxima-se. Oferece. Após a recusa, volta ao ponto de origem. Até a hora de ir para casa, continuará à espera de clientes que contribuam com seu trabalho.

Imediatamente, outra criança vaga pelo calçadão, em um tempo passado. Tal como a menina de anos depois, o garoto, mais novo, anda entre os adultos. Mas as mãos estão vazias. Ele procura, entre os que não o notam, alguém disposto a ajudá-lo. No desespero, apela:

– Você pode me dar dez reais? É melhor pedir do que roubar – diz a uma então menina. Em um futuro próximo, a frase continua a ecoar.

Em um sonho, em outra esquina, a moça ainda vê aquele rosto. O menino pequeno, sem identidade, é agora adulto. Como ela. Eles conversam. Ao agora rapaz, é dado um dinheiro para um sorvete. Um homem entrega o presente. Agradecido, aceita. Com carinho, sorri em retribuição.

Conversam, novamente, menina-moça e menino-rapaz. Eles sorriem e se entendem. Trocam abraços. Tornam-se amigos. Na despedida, ele estende a mão e lhe entrega o dinheiro, para devolver ao homem, e um bilhete.

“Não é só disso que precisamos. Busco outra coisa. Quando sigo por essas ruas, tenho diferentes desejos. Menina, o mundo nos dá aquilo que queremos. Só às vezes. Ambicioso, procuro sorrisos, afetos e abraços. Mas nem todos me enxergam. Então, te pergunto, a quem posso pedi-los?”

Ela o encara. A menina se transfigura no menino. A moça, no rapaz. “A quem posso pedi-los?” Ela mexe a cabeça, em negação. Não sabe a resposta. Ele concorda. E, sorrindo, sabiamente, parte em sua caminhada. Mais uma vez.

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