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Feliz ano velho

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Homenagem simboliza não apenas a morte de Aylan Kurdi, mas casos semelhantes registrados nos últimos anos, como o de Mohammed Shohayet

 

Cinco de janeiro de dois mil e dezessete. Quinto dia de um ano novo para o qual pessoas reuniram esperanças de vivenciar experiências melhores e mais positivas. Vontade de mudar a realidade e encontrar caminhos que as afastassem dos últimos doze meses. Estes entraram para a lista de alguns dos piores da história do Brasil e do mundo. Mas o quinto dia do novo ano amanheceu com ares de um retrocesso que caracterizou 2016.

Os jornais e o Facebook estamparam a foto de um bebê de 16 meses, chamado Mohammed Shohayet, que não conseguiu sobreviver a um naufrágio durante a fuga de Myanmar (ou Birmânia) para Bangladesh. Ele e seus familiares tentavam escapar da perseguição étnica. O corpo da criança, da etnia Rohingya (considerada pelo governo birmanês como grupo de imigrantes ilegais), foi fotografado à margem do rio Naf. Também morreram sua mãe, seu irmão (de três anos) e um tio. Somente o pai sobreviveu.

A foto de Mohammed, tragicamente, traz à lembrança a imagem de Aylan Kurdi, um garoto de três anos encontrado morto em situação semelhante. O corpo da criança foi fotografado em uma praia da Turquia, também após um naufrágio. Na época, o jornal “Independent” fez um alerta, veiculado em periódicos brasileiros: “se estas imagens com poder extraordinário de uma criança síria levada a uma praia não mudarem as atitudes da Europa com relação aos refugiados, o que mudará?”. Passados quase dois anos, a mudança esperada permanece em sonho.

E, no Brasil, com cinco dias de 2017, a população engole mortes individuais e coletivas e cenas diárias de violências enquanto vê o início do desaparecimento da esperança em dias mais calmos e positivos, que foram pedidos na passagem do ano. A melhor definição sobre os sentimentos gerados pelos primeiros cinco dias de 2017 foi feita, por meio de rede social, pela professora e jornalista Jacqueline Deolindo:

“Que época triste vivemos… As notícias, que quase nunca comento, são tristes, e a vida de tanta gente é uma tristeza só. Não dá nem pra dizer ‘oi, tudo ótimo’. Dizer ‘tudo ótimo’ é quase um desrespeito a essas dores. Reconheço, agradecida, tudo de bom, todo conforto, toda alegria e liberdade, todas as conquistas da minha família, mas, vendo pela janela o mar de lama que afoga nossos iguais, aqui perto, lá longe, o que circula no fundo da minha alma é compaixão, tristeza e dúvida. Não tem como não sofrer junto com os outros homens nem deixar de pensar na espantosa natureza humana.”

Caso do Bar Bodega: os deslizes do jornalismo

Diariamente, fatos relacionados a crimes são amplamente noticiados em veículos de comunicação, sejam televisivos, radiofônicos, impressos ou online. Grande parte das matérias se refere à editoria de polícia, conforme intitulam os jornalistas. No entanto, apesar da suposta facilidade na apuração desse tipo de notícia, muitos erros (que deveriam ser punidos devido à extensão do prejuízo) dos jornais brasileiros podem ser encontrados nessas histórias, nas quais bandidos e policiais são as principais atrações.

A ausência de apuração mais cuidadosa e aprofundada, vinculada ao pouco tempo dedicado a cada pauta, leva a imprensa a falhas grotescas e, muitas vezes, irreversíveis para as vítimas do “quarto poder”. Livros de jornalistas que se entregaram a um exercício de distanciamento para análise mais imparcial sobre a profissão possibilitam às novas gerações o conhecimento acerca das leviandades cometidas outrora.

Um dos repórteres que trabalhou para reverter crimes de informação cometidos pela imprensa é Carlos Dorneles. Jornalista da TV Globo, Dorneles dedicou-se a buscar os fatos sobre o crime do Bar Bodega, em São Paulo, na década de 90. O autor do livro Bar Bodega – um crime de imprensa, lançado em 2007, revirou os materiais jornalísticos produzidos e publicados na época, teve acesso aos inquéritos e apresentou aos brasileiros a verdadeira história da noite em que foram assassinados dois jovens de classe média no estabelecimento, que pertencia aos atores Luiz Gustavo, Cássio e Tato Gabus Mendes.

Na época, a Polícia Civil do Estado de São Paulo acusou erroneamente um menor de idade, chamado Cléverson, de ser o líder do bando que matou um dentista e uma estudante no bar. Após roubarem, os cinco bandidos (incluindo uma mulher, responsável por dar cobertura dentro de um táxi dirigido por ela) fugiram. Antes da partida, no entanto, um deles se envolveu em uma discussão com o dentista, de 26 anos, e o agrediu e matou. Do lado de fora do Bodega, outro assaltante atirou em direção à janela. A bala atingiu a estudante de odontologia, de 23 anos.

A classe média paulistana e a imprensa, revoltadas com o crime, fizeram pressão na polícia para que o caso fosse imediatamente solucionado. Diante da dificuldade de encontrar os assaltantes, agentes incriminaram o adolescente Cléverson que, à época, tinha 17 anos. Ele havia sido apreendido por assalto, dias depois do caso Bodega, e foi confundido por um policial. O menor, ao afirmar que não conhecia o bar e não sabia das mortes, foi brutalmente agredido e torturado pelos militares e civis, sedentos pela confissão do suposto assassino.

À medida que era violentado, Cléverson citou nomes de colegas e conhecidos do bairro onde morava, em São Paulo. Valmir da Silva, Valmir Martins, Luciano, Natal, Jailson, Benedito, Marcelo Nunes e Marcelo da Silva foram detidos após terem sido apontados pelo adolescente. No entanto, nenhum dos jovens tinha participação no crime do Bar Bodega. Enquanto os meninos tentavam se defender, eram cruelmente torturados pela polícia, que coagia o grupo a dar detalhes do caso.

A cada novidade, a imprensa, acrítica e despreparada para noticiar o caso, comparecia em massa para apresentar, posteriormente, à sociedade o resultado das investigações da polícia. Com manchetes sensacionalistas, matérias televisivas e radiofônicas exageradas, aliadas a perguntas para pressionar os detidos e apoio ao ideologicamente frágil movimento Reage São Paulo, o jornalismo brasileiro cometeu um dos mais grotescos erros registrados na história recente da imprensa: acusou, sem provas concretas, e com base apenas na versão da polícia, nove pessoas inocentes, cujas vidas foram seriamente prejudicadas pela cobertura midiática equivocada.

Após a reviravolta do caso, provocada pelo promotor Eduardo Araújo da Silva, o desfecho do caso do Bar Bodega foi mudado. Os verdadeiros assaltantes foram presos e os registros da imprensa, encerrados. No entanto, as consequências da acusação, causadas principalmente pelo jornalismo, foram imutáveis. Situação semelhante ocorreu no caso Escola Base, também nos anos 90, no qual pais de alunos, o motorista de uma Kombi, donos de um colégio infantil e uma sócia, todos de São Paulo, foram erroneamente acusados de abuso sexual – erro este reforçado pela imprensa do país.

Carlos Dorneles volta a buscar os meninos apontados como assassinos depois de 10 anos do fim das investigações. Os relatos resultaram na segunda parte de Bar Bodega – um crime de imprensa. Falta de oportunidades, discriminação, dificuldade financeira devido ao preconceito e as mudanças causadas na família devido à sucessão de erros da polícia de São Paulo e da imprensa são apresentadas no livro.

Apesar de bons elementos para ampliar as histórias dos nove suspeitos, o jornalista perdeu a chance de uma abordagem mais profunda da situação em que viviam os homens no ano de 2006. Apenas a vida do protagonista Cléverson é detalhada no trecho, tornando secundários os demais dramas vividos pelos outros oito rapazes e deixando soltos importantes detalhes que poderiam compor a maior obra jornalística sobre o crime cometido pela imprensa e pela polícia no caso do Bar Bodega.

Persona — o exercício do pecado

Liv Ullmann e Bibi Andersson em cena de “Persona”, do diretor sueco Ingmar Bergman

 

Em uma ilha, duas mulheres, antes desconhecidas, convivem e revivem histórias e segredos. Vindas de um hospital, as estranhas abrem-se uma a outra. Cada qual a seu modo. Uma permanece em silêncio. A outra conduz o relacionamento unilateral com palavras nunca ditas antes. As personagens se conheceram durante a internação da atriz Elizabeth Vogler, interpretada por Liv Ullmann, que, durante três meses, ficou em absoluto silêncio.

Após problemas na apresentação do espetáculo “Electra”, quando perdeu a voz no palco, Elizabeth isola-se do mundo em sua quietude. Internada, mas sem danos mentais ou físicos, ela recebe o conselho de uma psiquiatra, que compreende o seu novo modo de vida e os motivos que a levaram a segui-lo, e se muda, com a enfermeira Alma, personagem de Bibi Andersson, para a casa de praia de médica, em uma ilha.

Em português, “Persona” foi batizado como “Quando duas mulheres pecam”. Nas primeiras cenas do filme, Alma, em uma tentativa de se aproximar de Elizabeth, discorre sobre sua vida, ideal à primeira vista: enfermeira formada há poucos anos, casada e apaixonada pelo marido. O convívio íntimo, já na ilha, no entanto, faz com que a perfeição de sua história seja desconstruída por meio de relatos mantidos, até o momento, em segredo. O pecado do título, então, refere-se às verdades contadas pela mulher, que afirma que o amor acontece somente uma vez e, por isso, ela deve ser fiel ao marido e ao suposto sentimento nutrido por ele.

Com o passar dos dias, a relação se torna mais forte. Alma começa a se comunicar, à sua maneira, com Elizabeth, que responde com pequenas reações faciais e corporais. À medida que dividem as horas do dia, entre cigarros, bebidas e revelações, as identidades das mulheres parecem se fundir diante do espectador. Em uma sequência, à noite, Alma tenta dormir quando Elizabeth invade o seu quarto. Nela, com movimentos uniformes, roupas e expressões semelhantes, elas têm uma atípica troca, simbolizando a fusão entre ambas. As transferências das personagens – propositalmente confusas – são mais visíveis em cenas finais, principalmente durante a aparição do senhor Vogler (Gunnar Björnstrand). “É tudo mentira e imitação”, vocifera a então perturbada enfermeira.

O ato de revelar o interior leva Alma a um estado de angústia que a diferencia da Alma do início da história, cuja aparência transparecia leveza. As mudanças de comportamento ficam mais intensas após a enfermeira ler, à revelia de Elizabeth, uma carta da atriz enviada à psiquiatra. Ela lhe conta os segredos revelados pela companheira e afirma que é ótimo poder analisá-la. A quietude da artista torna-se insuportável para a parceira. Somente quando ameaçada, Vogler diz uma das únicas frases proferidas por Liv Ullmann em “Persona”: “não faça isso”. Um susto. Um pedido desesperado. Um chamado à realidade.

Certas passagens do filme mostram que Elizabeth e Alma se tornam o inferno da outra; o enfrentamento com os piores medos, verdades e fatos sobre suas respectivas vidas; a impossibilidade de negação, que era possível até o encontro das personagens. A transição violenta entre fatos e imaginação.

Proposital, a opção por apenas observar a realidade e as pessoas que dela fazem parte provém da dificuldade de se encaixar no mundo em que vive. Em contato com a psiquiatra, Elizabeth ouve da mulher as verdades que geraram seu novo modo vida: o conflito entre se mostrar e se esconder; entre ser e parecer. Em resposta, por escrito, a concordância: “Eu viveria assim para sempre. Em silêncio, vivendo uma vida reclusa, com poucas necessidades, sentindo minha alma finalmente se acalmar”.

Em seu primeiro filme com o diretor sueco Ingmar Bergman, ao lado da já consagrada Bibi Andersson (com mais uma atuação magistral), Liv Ullmann traduz toda a carga de emoção da personagem – uma das características do cinema produzido pelo homem, sempre relacionado aos mais complexos e profundos sentimentos. Em um monólogo, Liv, norueguesa de então 25 anos, escuta os segredos de Alma. Apenas escuta. Silencia em todos os momentos, fazendo com que a mulher tenha a oportunidade de, sozinha, conhecer a si mesma em um quase exercício socrático. O método é aplicado, também, à atriz, quando ela se depara com seus próprios demônios interiores.

 

As faces de Clarice Falcão

Foto: reprodução/Facebook

Foto: reprodução/Facebook

 

Fortuitos encontros (e desencontros) diários, muitas vezes, servem como empurrão para que tenhamos a oportunidade de conhecer novas produções do mundo artístico, em suas mais diversas formas. Música, livros, teatro, cinema. Com as notícias divulgadas sobre a área de cultura, é possível ter acesso a inúmeros trabalhos que têm sido publicados, tanto nacional quanto internacionalmente. Mas, cá para nós, os brasileiros causam mais encanto quando comparados aos que vêm de fora.

Olhar para si, para seu povo, sua arte e formação faz com que o indivíduo tenha maior sensibilidade para compreender e admirar (e também criticar, com base) o que é produzido no país em que nasceu. Entre algumas das boas novas surgidas há relativamente pouco tempo, uma das que mais aparece na mídia é Clarice Falcão, que, com suas peculiaridades, compõe canções que despertam a curiosidade dos consumidores mais jovens. E, apesar do lado irônico predominante, a artista tem o aspecto dramático, que é pouco explorado.

Também atriz e humorista, Clarice, filha da escritora e roteirista Adriana Falcão e do diretor João Falcão, ganhou destaque após participar do canal Porta dos Fundos, no YouTube. Os vídeos, de curta-metragem, têm visibilidade devido à exploração de um tipo de humor que não se enquadra na televisão brasileira. Por isso, a opção pela plataforma alternativa. A artista fez parte do grupo por alguns anos, mas se desligou em 2015 para, segunda ela, cuidar da carreira musical.

Recentemente, ela lançou “Problema Meu”, o segundo álbum de sua carreira. Ácido, doentio e cômico: três termos que definem as composições do CD. Entre as 14 músicas, o ouvinte encontrará lamentos e ameaças relacionadas a abandonos em um bar; confidências de uma mulher para a ex do namorado, com quem divide angústias e histórias; desejos de vingança transmitidos em uma composição feita pelo pai, João; e autocrítica irônica sobre sua própria produção.

Embora sua carreira esteja mais vinculada ao lado humorístico-sarcástico, o primeiro produto artístico em que Clarice se destacou – e que lhe rendeu prêmios, inclusive no concurso Project: Direct, realizado pelo Google e promovido pelo YouTube – foi o curta-metragem “Laços”, com roteiro de Adriana, sua mãe, e direção de Flávia Lacerda. Lançado em 2007, o vídeo acompanha o trajeto de uma menina pelas ruas.

Perdida após fugir do funeral do pai, ela encontra um rapaz desconhecido que tenta compreender o motivo do choro da garota e animá-la. Enquanto pede ajuda com a gravata, ele fala sobre a força de vínculos e sentimentos que unem os seres humanos, dando à personagem novas formas de encarar a vida, com surpresas diante de descobertas. Em cena, Clarice, ainda um rosto desconhecido, transmite emoções que se tornariam incomuns em sua futura carreira, abrindo mão da ironia característica e fortalecendo a ideia de que, apesar de optar por determinado estilo, o artista deve portar e saber usar suas múltiplas faces.

 

 

Eleitor: o lado forte da disputa

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Candidato eleito, Rafael Diniz comemora vitória (Foto: Rodrigo Silveira/ Folha da Manhã)

 

Na noite de domingo (2), a população campista acompanhou os momentos finais da eleição para os cargos de prefeito e vereador. A apuração trouxe um resultado não esperado para o momento: a vitória do candidato da oposição Rafael Diniz (PPS). De acordo com pesquisas divulgadas pela Folha da Manhã, a possibilidade era de segundo turno entre Rafael e Dr. Chicão (PR), que representava o governo.

As urnas, no entanto, comprovaram que a população almeja caminhos novos. E, com a força do discurso de Rafael, os cidadãos de Campos renovaram o desejo de atuar e modificar a realidade política e as esperanças no agora prefeito eleito. A verdadeira mudança começou com a transformação do comportamento dos eleitores, e não com os políticos.

Desde o fortalecimento da campanha do candidato do PPS, principalmente devido ao relacionamento travado com a população por meio da internet (conforme apontou o jornalista Aluysio Abreu Barbosa no artigo “Democracia irrefreável das redes sociais – Obama 2008 a Campos 2016“), os campistas passaram a observar, com maior proximidade, os passos de Rafael. A onda verde, então, ganhou força diante do interesse dos cidadãos pelos rumos da política.

Nas últimas eleições, o desânimo dos votantes marcava a ida obrigatória às seções. A descrença em melhorias e nas promessas, misturada ao visível descaso com a comunidade, fazia com que as pessoas se sentissem alheias à realidade e não tivessem convicção para escolher os representantes. A permanência da família Garotinho no poder, por quase três décadas, também era outro fator que desiludia tantos os mais novos quanto os mais velhos.

Mas as recentes transformações ocorridas em todo o cenário campista, principalmente o crescente interesse das pessoas por questões políticas e sociais e a pouca credibilidade dada ao discurso governista, fez com que a mudança fosse materializada. Outro ponto positivo é a conscientização quanto ao poder de escolha por meio do voto, que deixa de ser somente um momento obrigatório para se transformar em exercício de cidadania motivado pela necessidade de ver em cena outros rostos.

A percepção é confirmada pelo posicionamento da adolescente Lorena Alves Ribeiro, de 16 anos, que foi entrevistada pela jornalista Daniela Abreu, da Folha da Manhã, na tarde de eleição em Campos. Ela afirmou que “o jovem também tem direitos e tem que ter voz. Por isso, acho importante a gente ter atitude e votar”.

A vitória em primeiro turno reflete não só a boa aceitação de ideias e projetos de Rafael, mas também o reengajamento dos eleitores, que, desta vez, acompanharam, ouviram, assistiram e escolheram, com mais convicção, o representante para os próximos quatro anos.

A cidade que não conheço

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Tempos de propaganda eleitoral, militância em redes sociais e debates entre candidatos trazem novidades à população. É comum que concorrentes que fazem parte da situação, assim como seus militantes, elogiem e engrandeçam fatos e feitos relacionados à gestão vigente. Em Campos, o padrão é mantido.

Após o primeiro debate ocorrido na noite de domingo, transmitido pela TV Record, o quadro típico chegou a proporções desmedidas, principalmente nas redes sociais. Durante aproximadamente duas horas, os candidatos Rafael Diniz, Caio Vianna, Rogério Matoso, Dr. Chicão, Pudim e Nildo Cardoso comentaram suas propostas e criticaram – os da oposição – o poder público.

Conforme seu posicionamento e posição, Dr. Chicão, que não compareceu ao segundo debate da semana(promovido pelo Fórum Interinstitucional de Dirigentes do Ensino Superior de Campos, Fidesc, na Uenf), defendeu os projetos sociais criados pelo governo e afirmou que dará continuidade a eles, assim como asseguraram os demais candidatos. Mas não é só de benefícios que vivem os moradores de Campos.

Elogios à saúde – especialmente a programas de vacinação –, às vilas olímpicas e aos investimentos urbanos foram feitos no encontro entre os concorrentes à Prefeitura. Enquanto o discurso aponta para uma cidade, fatos mostram outra. Diariamente, são veiculados em matérias problemas relacionados ao município. Entre eles, vagas e superlotação em hospitais públicose, enquanto isso, verbas de uma pasta são destinadas a outras, falta de saneamento básico em Bairro Legal, paralisação das obras de revitalização do Teatro de Bolso Procópio Ferreira e do Palácio da Cultura.

Para além dos debates, as propagandas, que deveriam mostrar as propostas de governo, denigrem e desqualificam as imagens dos opositores em uma lamentável tentativa de conseguir adesão da população, que, em parte, reafirma a necessidade de mudanças. A postura é reproduzida por militantes em redes sociais, principalmente os que estão vinculados ao poder público. Somente fotos e feitos são difundidos pelas plataformas.

As discussões se transformam em confronto pessoal e apenas reproduzem o que afirmam os membros do governo, sem que haja qualquer contribuição crítica para tornar democrático o processo de formação e informação. Mesmo quando os fatos do cotidiano vão de encontro ao que é pregado, é visível a insistência em tentar induzir as pessoas a acreditarem somente em benefícios, mascarando o que é visto por quem vive na Campos real.

 

* O candidato Caio Vianna também não participou do debate no Centro de Convenções da Uenf

Noite de letras e artes

Momento em que os participantes receberam medalhas (foto: Paula Vigneron)

Momento em que os participantes receberam medalhas (foto: Paula Vigneron)

 

Estudantes do curso de Letras do campus Centro do Instituto Federal Fluminense  (IFF) promoveram, na noite de ontem (22), a primeira edição do Festival de Contos do Ensino Médio. Para a final, foram selecionados nove textos escritos pelos alunos. Adolescentes entre 15 e 17 anos. Meninas e meninos tímidos. Tive a honra de poder presenciar o evento da mesa dos jurados, composta, também, pelos professores Adriano Moura e Marília Siqueira.

O vozerio indicava o lugar onde aconteceria o concurso: auditório Cristina Bastos. Pessoas de todas as idades e interesses ali se encontravam para acompanhar a leitura dos contos e apresentações musicais dos graduandos, que se alternavam no palco ajustando os últimos detalhes para o começo das atividades. Na véspera, recebi as histórias produzidas por aqueles garotos que são um pouco do que fui.

A correria da rotina da redação não me impediu de, antes da leitura mais atenta, passar os olhos pelas narrativas. À primeira vista, percebi a riqueza dos enredos. Ideias críticas em diálogo com a realidade, que golpeiam o leitor, saídas de mentes tão jovens. Novamente, eu estava entre eles. Porque, anos antes, percorri os caminhos pelos quais os participantes andam. Minha história com a literatura esbarra pela passagem, durante o ensino médio, no então Cefet. Também aos 15 anos.

Após encerrar as atividades no jornal, dediquei o tempo à leitura dos contos. Textos bem construídos, com desfechos incômodos que abordam, em sua maioria, os fatos cotidianos a que estamos lamentavelmente acostumados. E soam como alerta à necessidade de não naturalizar as barbaridades vistas, ouvidas e lidas nos noticiários.

Entre as músicas, o público acompanhou a interpretação dos alunos da graduação. Nove contos que causaram diversas reações na plateia. Murmúrios, respirações descompassadas e atenção constante. Da mesa, observei e compartilhei as sensações. Membros de comissões julgadoras afirmam sempre que é difícil o momento da escolha. Até então, achava que era a repetição de um discurso comum. Mas a breve experiência resultou na comunhão de pensamento.

Três dos nove estudantes foram selecionados. Ganharam prêmio em dinheiro e livros de literatura brasileira. Dois meninos, Leonardo Pinheiro e Théo Dias, e uma menina, Ana Victória Canellas, ocuparam os lugares, envergonhados diante dos aplausos, flashes e cumprimentos. Três jovens que desenvolveram, conforme suas criatividades e vivências, histórias e personagens que poderiam viver entre nós. Três mentes que representam grupos de estudantes para os quais, muitas vezes, podem faltar oportunidades, mas não vontade. E uma noite que despertou perspectivas para novos festivais e a certeza de uma adolescência não alienada.

O amargo gosto da guerra

A fotografia do jornalista estampou a edição 26 da revista Realidade

A fotografia do jornalista estampou a edição 26 da revista Realidade

 

Em 1968, o repórter José Hamilton Ribeiro foi escalado para cobrir a Guerra do Vietnã pela revista Realidade. Nenhum correspondente brasileiro havia ido até o país, e Hamilton aceitou o convite feito pelo veículo de comunicação. Batalhou para conseguir o visto e instalou-se, inicialmente, em Saigon, capital do Vietnã do Sul, poucos dias depois da ofensiva do Tet, que deixou arrasada a cidade.

Hamilton foi enviado para cobrir 40 dias da guerra, mas, convidado pelo fotógrafo Shimamoto a ficar mais um dia, permaneceu para acompanhar uma missão das tropas americanas na Estrada Sem Alegria. A ida trouxe uma grande consequência para o jornalista: a perda da perna esquerda. O acidente o levou a questionar diversos assuntos, incluindo a profissão, durante o tempo em que ficou internado. Em contrapartida, o repórter de guerra é, ainda hoje, considerado um dos maiores profissionais da imprensa brasileira. Suas experiências culminaram no livro O Gosto da Guerra, relançado em 2005 pela editora Objetiva.

Durante sua estada no Vietnã do Sul, Hamilton apresentou detalhes do comportamento dos soldados americanos, analisados por ele nos quarenta dias em que ficou hospedado nos quartéis dos estadunidenses e foi, por eles, escoltado em missões e investidas contra os vietcongues. Cumprindo a regra jornalística que determina a necessidade de escutar os dois lados para a produção de uma reportagem, ele tentou ir ao Vietnã do Norte, mas a viagem foi impossibilitada porque lhe foi negado o visto. Nas memórias do repórter, entretanto, são narradas histórias relacionadas à ocasião e ao rápido encontro do homem com um vietcongue.

As narrativas da guerra oferecem um panorama sobre o conflito que se estendeu de 1955 a 1975 e, também, sobre a cultura e costumes locais. A luta das mulheres ao lado dos vietcongues e da Frente Nacional para a Libertação (FNL), visando combater os inimigos e a opressão a que eram submetidas, e os ritos religiosos como forma de se aproximar das divindades e obter os pedidos desejados (apresentados a partir do excelente exercício de estranhamento, possibilitado pelo distanciamento natural, feito pelo autor) são alguns pontos abordados por Hamilton, entre as recordações de sua passagem pelos hospitais do Vietnã.

Táticas e atos militares dos Estados Unidos, morte indiscriminada de habitantes das regiões durante os confrontos, o papel dos americanos na derrota de seu país, vinculados à comprometida busca pela informação, levam o leitor a uma ampla compreensão acerca da Guerra do Vietnã, sob o ponto de vista de Hamilton, que experimentou, segundo suas próprias palavras, o amargo gosto da guerra.

Chão de promessas

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Anda-se, diariamente, ao lado das promessas de vereadores. Espalhadas pela cidade, gritadas por carros, reafirmadas por fogos e jingles clichês. Combinações pensadas para que as canções criem vida própria na cabeça do cidadão. Caminhar por uma rua, no período eleitoral, é se debater com pessoas, pedras, poeira, papéis – oferecendo desde serviços de pais de santo para sorte no amor a palavras de político sobre a possibilidade de um futuro melhor, caso seja eleito. Propagandas quase nunca lidas e descartadas, indiscriminadamente, no asfalto das principais vias.

Os bairros tomados por rostos, números e expressões. Por tentativas de um sorriso simpático ou por olhares sérios para assegurar o compromisso com a população. À frase “porque, no meu mandato…”, segue-se uma enxurrada de ideias, ideologias, críticas ao concorrente, projetos – que, muitas vezes, de antemão, o eleitor compreende a impossibilidade de realização –, mais críticas e novas promessas.

A alguns nomes, são acrescentados cômicos bordões e apelidos para explicar melhor a que vem o proponente: “Candidato da Família”, “Educação é a Solução”, “da Bicicleta”, “do Carro”, “Defensora dos Animais”, “do Povão”, “Gadernal (sic)”, “A hora é agora”, “É Ser Humano”, “Uma Nova Esperança”e “Vai (sic) Dá Zebra”.

O termo “Pastor” antecede o nome de determinados candidatos. Homens e mulheres de todas as idades se misturam em um painel político-religioso banal e, por vezes, conservador ao qual é necessário recorrer para que 359.323 eleitores escolham seus representantes. Entre eles, “Desodorante” também concorre ao cargo. Surgem, também, pedidos de consciência política ao votar. Cuidado ao selecionar o número que teclará nas urnas. Conhecimento sobre propostas.

Mas poucas propostas efetivas são conhecidas. Fala-se em melhorias básicas, como saúde, educação e saneamento. Superficialmente. Vídeos de reuniões veiculam pelas redes sociais, com apoio da sociedade e pedidos de votos. Orações recorrentes a Deus para a conquista da vitória. Fotografias de caminhadas e carreatas.

Em certos momentos, fora do âmbito político, a atuação dos cidadãos soa mais relevante. Diversas pessoas planejam e executam ações para melhorias na cidade. Cultura, meio ambiente e projetos sociais – que sobrevivem mais por amor à causa do que por apoio público, como a ONG Orquestrando a Vida – são preocupações de muitos que optam por permanecer definitivamente distantes da competição eleitoral.

Diante das exigências de consciência política no momento da votação, contraditórias devido à predominância de tantos discursos líquidos e ações isoladas, resta a dúvida sobre a possibilidade de definir com seriedade.

Um nome, um verbo

O atual presidente do Brasil, Michel Temer (foto: UOL)

O atual presidente do Brasil, Michel Temer (foto: UOL)

 

Vozes, histórias, opiniões em todos os cantos. Por trechos de ruas, o barulho de ansiedade demonstra o medo do momento. Balbúrdias. As pessoas caminham como se não soubessem exatamente para onde seguem. Nas mesas dos bares, em que assuntos como futebol, carros, relacionamentos e, por vezes, religião dominavam os bate-bocas, há notável mudança. Homens e mulheres, de todas as idades, conversam, concordam e discordam sobre o que está sendo feito de nós, sem que precisemos dormir como pedra.

A cada dia que passa, os noticiários despejam sobre leitores, ouvintes e telespectadores mais e mais fatos relacionados ao novo momento político pelo qual passa o Brasil após a saída de Dilma Rousseff e a consequente posse de Michel Temer: possibilidades relacionadas ao fim do sistema de ensino gratuito, mudanças nas leis trabalhistas, na Previdência Social e nos programas sociais. Até o papa Francisco demonstrou preocupação com o atual momento do Brasil, caracterizando-o como triste.

Os efeitos começam a ser sentidos pela população. No bar, o garçom atende, educadamente, os clientes que ocupam uma parte do espaço quase no final do expediente de um sábado à noite. Cansado, o homem oferece o cardápio, anota atenciosamente os pedidos e vaga pelo espaço à procura de novas mesas que ainda não foram atendidas.

No final da noite, ele é novamente chamado. Desta vez, para trazer a conta. O valor, dividido entre os três presentes, não foi o mais absurdo. Mesmo assim, entre comentários, eles brincam:

– Para você, deu só R$ 2.100. Barato – diverte-se o garçom.

– Não faça isso. Nem brinque. Não tenho nem condições de pagar isso, moço – respondeu uma das clientes.

– Ah, mas não se preocupe. Tem um monte de pratos ali que precisam ser lavados – e todos riram antes de um pedido de desculpas verdadeiramente envergonhado.

Após o pagamento, o garçom compartilha um pouco de sua vida com os amigos: ele está fora de sua área de origem – Segurança do Trabalho – há meses e tem trabalhado na função para poder custear as despesas.

– As contas não param de chegar. Esses dias, de manhã, chegou o rapaz dos Correios com elas. E a gente tem que pagar. Estou há mais de seis semanas sem saber o que é descanso. Trabalho como garçom nos finais de semana e estou começando um estacionamento no Centro, mas está fraco – contou.

O homem, cujo nome não foi citado, é o retrato do Brasil atual; do medo das mudanças e da instabilidade; da necessidade de buscar outros meios de sustentação e manter em dia todas as contas; da falta de oportunidades, mesmo para aqueles que conseguiram diploma – papel que, antes, dava certa garantia a quem o tinha –; do não saber se amanhã será um novo dia.

 

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