Categorias

Os selos de Ruy Castro

heloisaruy

Heloísa Seixas e Ruy Castro (foto: O Estado de São Paulo)

 

No final no ano de 2014, a jornalista e escritora Heloísa Seixas, após reunir memória e ficção baseadas na vida do marido, Ruy Castro, lançou o livro “O Oitavo Selo”, da editora Cosac Naify. O título faz uma referência a um dos grandes cineastas do século XX, o sueco Ingmar Bergman, que levou às telas angústias e dúvidas existenciais com o filme “O Sétimo Selo” (1957), no qual um cavaleiro visa atrasar os planos da Morte por meio de um jogo de xadrez.

Cada selo da história de Ruy Castro se refere a uma parte do corpo do jornalista: sangue, nariz, fígado, língua, coração, sexo e cérebro. Os capítulos narram a proximidade do homem com a morte em sete diferentes ocasiões, tanto como personagem quanto como protagonista. Os relatos mesclam a forte realidade aos delicados toques literários de Heloísa Seixas.

A narrativa é iniciada a partir das memórias de Heloísa Seixas, que retrata um fato da vida do casal em um hospital.  Em sequência, são feitas construções do passado, rememorando a infância de Ruy Castro, fase em que já era possível notar o vínculo do jornalista com algo que permearia toda a sua vida: ficção, seja por meio da literatura ou do cinema.

A importância da escrita para o homem, como é tratado na história, é destacada por Heloísa como uma forma de ele se desvencilhar das dores e do temor da morte. Ela compreende o ato de produção ininterrupta como uma maneira de ele saber que deve permanecer vivo por ter trabalhos a concluir, principalmente no momento em que enfrenta um câncer e, paralelamente, escreve “Carmen: uma biografia”, sobre a artista portuguesa Carmen Miranda, lançada em 2005.

Assim como o cavaleiro do longa-metragem de Bergman, vivido pelo ator Max von Sydow, utiliza o tabuleiro de xadrez para adiar a morte, Castro joga com as palavras, na literatura e no jornalismo, para escapar do pânico gerado por ela. “O cavaleiro, então, tentando ganhar tempo, convida a Morte para um jogo de xadrez, que vai decidir se ele vai ou não com ela. A Morte concorda, sabendo que vai ganhar. Mas o cavaleiro joga porque não tem outro jeito. Ele precisa jogar. O jogo é a única possibilidade, mesmo que passageira, para driblar a Morte.”

As opções pela não-linearidade do quase romance, como classifica a própria autora, e por unir a escrita a depoimentos seus e do protagonista tornam a leitura fluida e passível de criar mentalmente, a partir dela, pequenas cenas, sem que o leitor se sinta confuso pela troca repentina de cenários, personagens e enredos.

Em “O Oitavo Selo”, a descrição é um dos elementos-chaves da obra de quase ficção. No entanto, predomina não a descrição de elementos que compõem o cenário, visando ambientar o leitor, e sim a de sentimentos e sensações, proporcionando ao receptor envolvimento pleno com a narrativa.

Escrever sobre memórias, sendo essas quase ou completamente reais, é uma das características da escritora que, em 2007, publicou “O lugar escuro – Uma história de senilidade e loucura”, pela editora Objetiva. No livro, Heloísa remonta o convívio com a mãe, debilitada pelo Mal de Alzheimer, sempre com zelo descritivo e linguagem envolvente, também marcantes em sua mais recente obra.

Mundo de Gepeto

Em maio do ano passado, recebi, da jornalista e então editora da Folha Dois, Dora Paula Paes, a pauta para entrevistar Jorge Mayerhofer Ribeiro. Em sua loja, na Rua Carlos de Lacerda, ele montava e consertava objetos de madeira, inclusive brinquedos, seus preferidos. Em um ofício raro, o idoso, que, na época, tinha 75 anos, afirmava se sentir alegre ao confeccionar seus produtos, muitas vezes criados com materiais encontrados nas ruas de Campos. Fomos, eu e a repórter fotográfica Michelle Richa, conhecer pouco mais de sua história.

Na noite de ontem (29), recebi a notícia da morte de Jorge. Imediatamente, a figura do homem sorridente e satisfeito com o exercício de sua função — cada vez menos comum — veio à mente. E, em homenagem à memória e ao trabalho de Jorge, o blog Vigneron reproduz a matéria veiculada pela Folha da Manhã, no dia 5 de maio de 2015, com o título “Mundo de Gepeto”.

 

14522475_1150399541683903_635147983_o

Em manhã de entrevista, Jorge contou detalhes sobre seu trabalho (Foto: Michelle Richa/ Folha da Manhã)

 

Uma porta cinza é aberta todos os dias da semana, no início da manhã. A abertura única deixa visível, em um pequeno ponto na rua Carlos de Lacerda, Jorge Mayerhofer Ribeiro, de 75 anos, bem ao estilo Gepeto, da fábula de Pinóquio. Vestido com uma bermuda preta e camisa azul quadriculada, ele se senta em um banquinho de madeira envernizada para criar. As paredes azuis estão desgastadas pelo tempo. O chão, coberto por serragem, tem espaço para abrigar outros bancos, móveis e materiais com os quais o idoso monta, remonta e conserta objetos encomendados. Com mãos habilidosas e auxílio de régua, caneta e ferramentas, contrariando a era da tecnologia, ele marca, fura, serra e lixa madeiras para construir porta-joias, gaiolas, cofres e brinquedos. No local, não restam produtos à mostra. Todos eles são feitos e vendidos rapidamente.

Em pouco mais de uma hora, Jorge se levantou mais de cinco vezes do banquinho em direção às máquinas para a modelagem da madeira. Pedaços dos materiais espalhados pela lojinha são utilizados a todo o momento.

— Eu aproveito tudo. Meu neto diz que sempre que saio trago alguma coisa da rua — contou, entre sorrisos. Jorge costuma recolher peças que considera úteis para a montagem do seu acervo — Às vezes, pego madeira de marcenaria. Eles jogam fora, e eu aproveito.

No momento em que manuseia as madeiras para a construção de novos objetos, diversas pessoas olham para dentro do espaço. Curiosas, elas se atêm aos objetos e ao homem que trabalha sem se preocupar com o passar do tempo. “Bom dia, Jorge”, cumprimentam os conhecidos. “Dá um sorriso, Jorge, para ficar bonito”, brinca um rapaz que o observa brevemente.

Há nove anos, o aposentado encerrou suas atividades no comércio de Campos e começou a trabalhar com artesanato. Desde então, assim como o irmão, Jorge se dedica unicamente ao ofício.

— Trabalhei durante 38 anos em uma firma que fechou. Aposentei e continuei trabalhando lá. Quando acabou, fiquei em casa. Eu não quis ficar parado e comecei a fazer isso. É uma distração. Uma terapia. Sempre gostei de trabalhar com madeira. Gosto de fazer. Graças a Deus, não sinto nada. Quando a gente está doente, desanima — afirmou. Apenas nas tardes de verão, nas quais o sol incide diretamente na lojinha, Jorge encerra as atividades mais cedo.

Para ele, o trabalho atual é um prazer sem cobranças e sem compromisso. “Daqui a pouco, saio. Vou andar. Às vezes, viajo. Meus filhos vão trabalhar, e eu vou dar um passeio na rua”, contou. Com quatro filhos, sendo dois destes funcionários de outras cidades, o idoso os acompanha, em algumas ocasiões, a Porciúncula e Macaé. “Eu passeio muito”, garante.

Os produtos que mais gosta de construir são brinquedos. Geralmente, do conjunto de móveis de bonecas, ele produz uma peça por dia, seja guarda-roupa, cama ou penteadeira, cujo acabamento é feito, também, com um pedaço de espelho e pintura. Na era da tecnologia, Jorge não perde seu lucro.

— Hoje, as crianças só querem computador. Mas, mesmo assim, eu vendo muito — revelou, enquanto, com agilidade e precisão, marcava 18 pontos em um pedaço de madeira e 13 pontos em outro, que seriam fincados em palitos presos a uma pequena tábua para a confecção de uma gaiola. Após o término, Jorge contou que o próximo passo seria a conclusão de um cofre, depois do qual planejava parar para o almoço e retornar à tarde, no horário que decidisse. Para ele, o dia de trabalho estava apenas começando.

Aos leitores

“O sol nas bancas de revistas/

Me enche de alegria e preguiça/

Quem lê tanta notícia?”

Na música “Alegria, Alegria”, composta no final dos anos 60, Caetano Veloso faz um questionamento baseado na quantidade de informações a que as pessoas tinham acesso por meio dos jornais impressos, com fatos relacionados a “crimes, espaços, guerrilhas e Cardinales bonitas”. Ainda hoje, a canção continua atual, embora a situação seja pouco pior: sem desejar, por meio não somente dos veículos de comunicação, mas também das redes sociais, os usuários são bombardeados, em todos os momentos, com fotos, vídeos, áudios e matérias sobre diversos temas.

De separação de apresentadores até o impeachment da presidente Dilma Rousseff, passando por casos inventados nos feeds de notícia de Facebook para assustar os leitores desprevenidos e pregar peças em jornalistas, o internauta consome mais informações do que o necessário e o saudável, fato que resulta em cansaço mental, emocional e desânimo para compreender dados relevantes e úteis para a formação de seu pensamento.

Por isso, é preciso que o profissional da comunicação, lamentavelmente desacreditado, esteja em constante atividade. Para que o consumidor de notícias não fique mais desinformado do que informado; para que não haja enganos espalhados de modo indiscriminado como se fossem verdades absolutas; para que as informações, antes de chegarem ao produto final, sejam filtradas e selecionadas de acordo com o interesse público.

Mas, apesar de ser esta a função do jornalista, é necessário que os que atuam na área se policiem para que não caiam no senso comum e no trabalho mecânico. Afinal, o jornalismo é exercício de criatividade (unida à verdade), responsabilidade e ética, com o propósito de servir ao leitor, telespectador e ouvinte, seja por meio do noticiário ou de opinião, que serão dois dos focos deste blog. E que, juntos, façamos um mergulho no mundo real.

Mas, com a sua permissão, espero que tenhamos, em algumas ocasiões, o auxílio das artes – literatura, cinema e música – como um meio para compreendermos a realidade.

 

Copyright © 2010 - Folha da Manhã - Todos os direitos reservados