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Mundo de Gepeto

Em maio do ano passado, recebi, da jornalista e então editora da Folha Dois, Dora Paula Paes, a pauta para entrevistar Jorge Mayerhofer Ribeiro. Em sua loja, na Rua Carlos de Lacerda, ele montava e consertava objetos de madeira, inclusive brinquedos, seus preferidos. Em um ofício raro, o idoso, que, na época, tinha 75 anos, afirmava se sentir alegre ao confeccionar seus produtos, muitas vezes criados com materiais encontrados nas ruas de Campos. Fomos, eu e a repórter fotográfica Michelle Richa, conhecer pouco mais de sua história.

Na noite de ontem (29), recebi a notícia da morte de Jorge. Imediatamente, a figura do homem sorridente e satisfeito com o exercício de sua função — cada vez menos comum — veio à mente. E, em homenagem à memória e ao trabalho de Jorge, o blog Vigneron reproduz a matéria veiculada pela Folha da Manhã, no dia 5 de maio de 2015, com o título “Mundo de Gepeto”.

 

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Em manhã de entrevista, Jorge contou detalhes sobre seu trabalho (Foto: Michelle Richa/ Folha da Manhã)

 

Uma porta cinza é aberta todos os dias da semana, no início da manhã. A abertura única deixa visível, em um pequeno ponto na rua Carlos de Lacerda, Jorge Mayerhofer Ribeiro, de 75 anos, bem ao estilo Gepeto, da fábula de Pinóquio. Vestido com uma bermuda preta e camisa azul quadriculada, ele se senta em um banquinho de madeira envernizada para criar. As paredes azuis estão desgastadas pelo tempo. O chão, coberto por serragem, tem espaço para abrigar outros bancos, móveis e materiais com os quais o idoso monta, remonta e conserta objetos encomendados. Com mãos habilidosas e auxílio de régua, caneta e ferramentas, contrariando a era da tecnologia, ele marca, fura, serra e lixa madeiras para construir porta-joias, gaiolas, cofres e brinquedos. No local, não restam produtos à mostra. Todos eles são feitos e vendidos rapidamente.

Em pouco mais de uma hora, Jorge se levantou mais de cinco vezes do banquinho em direção às máquinas para a modelagem da madeira. Pedaços dos materiais espalhados pela lojinha são utilizados a todo o momento.

— Eu aproveito tudo. Meu neto diz que sempre que saio trago alguma coisa da rua — contou, entre sorrisos. Jorge costuma recolher peças que considera úteis para a montagem do seu acervo — Às vezes, pego madeira de marcenaria. Eles jogam fora, e eu aproveito.

No momento em que manuseia as madeiras para a construção de novos objetos, diversas pessoas olham para dentro do espaço. Curiosas, elas se atêm aos objetos e ao homem que trabalha sem se preocupar com o passar do tempo. “Bom dia, Jorge”, cumprimentam os conhecidos. “Dá um sorriso, Jorge, para ficar bonito”, brinca um rapaz que o observa brevemente.

Há nove anos, o aposentado encerrou suas atividades no comércio de Campos e começou a trabalhar com artesanato. Desde então, assim como o irmão, Jorge se dedica unicamente ao ofício.

— Trabalhei durante 38 anos em uma firma que fechou. Aposentei e continuei trabalhando lá. Quando acabou, fiquei em casa. Eu não quis ficar parado e comecei a fazer isso. É uma distração. Uma terapia. Sempre gostei de trabalhar com madeira. Gosto de fazer. Graças a Deus, não sinto nada. Quando a gente está doente, desanima — afirmou. Apenas nas tardes de verão, nas quais o sol incide diretamente na lojinha, Jorge encerra as atividades mais cedo.

Para ele, o trabalho atual é um prazer sem cobranças e sem compromisso. “Daqui a pouco, saio. Vou andar. Às vezes, viajo. Meus filhos vão trabalhar, e eu vou dar um passeio na rua”, contou. Com quatro filhos, sendo dois destes funcionários de outras cidades, o idoso os acompanha, em algumas ocasiões, a Porciúncula e Macaé. “Eu passeio muito”, garante.

Os produtos que mais gosta de construir são brinquedos. Geralmente, do conjunto de móveis de bonecas, ele produz uma peça por dia, seja guarda-roupa, cama ou penteadeira, cujo acabamento é feito, também, com um pedaço de espelho e pintura. Na era da tecnologia, Jorge não perde seu lucro.

— Hoje, as crianças só querem computador. Mas, mesmo assim, eu vendo muito — revelou, enquanto, com agilidade e precisão, marcava 18 pontos em um pedaço de madeira e 13 pontos em outro, que seriam fincados em palitos presos a uma pequena tábua para a confecção de uma gaiola. Após o término, Jorge contou que o próximo passo seria a conclusão de um cofre, depois do qual planejava parar para o almoço e retornar à tarde, no horário que decidisse. Para ele, o dia de trabalho estava apenas começando.

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A cidade que não conheço

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Tempos de propaganda eleitoral, militância em redes sociais e debates entre candidatos trazem novidades à população. É comum que concorrentes que fazem parte da situação, assim como seus militantes, elogiem e engrandeçam fatos e feitos relacionados à gestão vigente. Em Campos, o padrão é mantido.

Após o primeiro debate ocorrido na noite de domingo, transmitido pela TV Record, o quadro típico chegou a proporções desmedidas, principalmente nas redes sociais. Durante aproximadamente duas horas, os candidatos Rafael Diniz, Caio Vianna, Rogério Matoso, Dr. Chicão, Pudim e Nildo Cardoso comentaram suas propostas e criticaram – os da oposição – o poder público.

Conforme seu posicionamento e posição, Dr. Chicão, que não compareceu ao segundo debate da semana(promovido pelo Fórum Interinstitucional de Dirigentes do Ensino Superior de Campos, Fidesc, na Uenf), defendeu os projetos sociais criados pelo governo e afirmou que dará continuidade a eles, assim como asseguraram os demais candidatos. Mas não é só de benefícios que vivem os moradores de Campos.

Elogios à saúde – especialmente a programas de vacinação –, às vilas olímpicas e aos investimentos urbanos foram feitos no encontro entre os concorrentes à Prefeitura. Enquanto o discurso aponta para uma cidade, fatos mostram outra. Diariamente, são veiculados em matérias problemas relacionados ao município. Entre eles, vagas e superlotação em hospitais públicose, enquanto isso, verbas de uma pasta são destinadas a outras, falta de saneamento básico em Bairro Legal, paralisação das obras de revitalização do Teatro de Bolso Procópio Ferreira e do Palácio da Cultura.

Para além dos debates, as propagandas, que deveriam mostrar as propostas de governo, denigrem e desqualificam as imagens dos opositores em uma lamentável tentativa de conseguir adesão da população, que, em parte, reafirma a necessidade de mudanças. A postura é reproduzida por militantes em redes sociais, principalmente os que estão vinculados ao poder público. Somente fotos e feitos são difundidos pelas plataformas.

As discussões se transformam em confronto pessoal e apenas reproduzem o que afirmam os membros do governo, sem que haja qualquer contribuição crítica para tornar democrático o processo de formação e informação. Mesmo quando os fatos do cotidiano vão de encontro ao que é pregado, é visível a insistência em tentar induzir as pessoas a acreditarem somente em benefícios, mascarando o que é visto por quem vive na Campos real.

 

* O candidato Caio Vianna também não participou do debate no Centro de Convenções da Uenf

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Noite de letras e artes

Momento em que os participantes receberam medalhas (foto: Paula Vigneron)

Momento em que os participantes receberam medalhas (foto: Paula Vigneron)

 

Estudantes do curso de Letras do campus Centro do Instituto Federal Fluminense  (IFF) promoveram, na noite de ontem (22), a primeira edição do Festival de Contos do Ensino Médio. Para a final, foram selecionados nove textos escritos pelos alunos. Adolescentes entre 15 e 17 anos. Meninas e meninos tímidos. Tive a honra de poder presenciar o evento da mesa dos jurados, composta, também, pelos professores Adriano Moura e Marília Siqueira.

O vozerio indicava o lugar onde aconteceria o concurso: auditório Cristina Bastos. Pessoas de todas as idades e interesses ali se encontravam para acompanhar a leitura dos contos e apresentações musicais dos graduandos, que se alternavam no palco ajustando os últimos detalhes para o começo das atividades. Na véspera, recebi as histórias produzidas por aqueles garotos que são um pouco do que fui.

A correria da rotina da redação não me impediu de, antes da leitura mais atenta, passar os olhos pelas narrativas. À primeira vista, percebi a riqueza dos enredos. Ideias críticas em diálogo com a realidade, que golpeiam o leitor, saídas de mentes tão jovens. Novamente, eu estava entre eles. Porque, anos antes, percorri os caminhos pelos quais os participantes andam. Minha história com a literatura esbarra pela passagem, durante o ensino médio, no então Cefet. Também aos 15 anos.

Após encerrar as atividades no jornal, dediquei o tempo à leitura dos contos. Textos bem construídos, com desfechos incômodos que abordam, em sua maioria, os fatos cotidianos a que estamos lamentavelmente acostumados. E soam como alerta à necessidade de não naturalizar as barbaridades vistas, ouvidas e lidas nos noticiários.

Entre as músicas, o público acompanhou a interpretação dos alunos da graduação. Nove contos que causaram diversas reações na plateia. Murmúrios, respirações descompassadas e atenção constante. Da mesa, observei e compartilhei as sensações. Membros de comissões julgadoras afirmam sempre que é difícil o momento da escolha. Até então, achava que era a repetição de um discurso comum. Mas a breve experiência resultou na comunhão de pensamento.

Três dos nove estudantes foram selecionados. Ganharam prêmio em dinheiro e livros de literatura brasileira. Dois meninos, Leonardo Pinheiro e Théo Dias, e uma menina, Ana Victória Canellas, ocuparam os lugares, envergonhados diante dos aplausos, flashes e cumprimentos. Três jovens que desenvolveram, conforme suas criatividades e vivências, histórias e personagens que poderiam viver entre nós. Três mentes que representam grupos de estudantes para os quais, muitas vezes, podem faltar oportunidades, mas não vontade. E uma noite que despertou perspectivas para novos festivais e a certeza de uma adolescência não alienada.

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O amargo gosto da guerra

A fotografia do jornalista estampou a edição 26 da revista Realidade

A fotografia do jornalista estampou a edição 26 da revista Realidade

 

Em 1968, o repórter José Hamilton Ribeiro foi escalado para cobrir a Guerra do Vietnã pela revista Realidade. Nenhum correspondente brasileiro havia ido até o país, e Hamilton aceitou o convite feito pelo veículo de comunicação. Batalhou para conseguir o visto e instalou-se, inicialmente, em Saigon, capital do Vietnã do Sul, poucos dias depois da ofensiva do Tet, que deixou arrasada a cidade.

Hamilton foi enviado para cobrir 40 dias da guerra, mas, convidado pelo fotógrafo Shimamoto a ficar mais um dia, permaneceu para acompanhar uma missão das tropas americanas na Estrada Sem Alegria. A ida trouxe uma grande consequência para o jornalista: a perda da perna esquerda. O acidente o levou a questionar diversos assuntos, incluindo a profissão, durante o tempo em que ficou internado. Em contrapartida, o repórter de guerra é, ainda hoje, considerado um dos maiores profissionais da imprensa brasileira. Suas experiências culminaram no livro O Gosto da Guerra, relançado em 2005 pela editora Objetiva.

Durante sua estada no Vietnã do Sul, Hamilton apresentou detalhes do comportamento dos soldados americanos, analisados por ele nos quarenta dias em que ficou hospedado nos quartéis dos estadunidenses e foi, por eles, escoltado em missões e investidas contra os vietcongues. Cumprindo a regra jornalística que determina a necessidade de escutar os dois lados para a produção de uma reportagem, ele tentou ir ao Vietnã do Norte, mas a viagem foi impossibilitada porque lhe foi negado o visto. Nas memórias do repórter, entretanto, são narradas histórias relacionadas à ocasião e ao rápido encontro do homem com um vietcongue.

As narrativas da guerra oferecem um panorama sobre o conflito que se estendeu de 1955 a 1975 e, também, sobre a cultura e costumes locais. A luta das mulheres ao lado dos vietcongues e da Frente Nacional para a Libertação (FNL), visando combater os inimigos e a opressão a que eram submetidas, e os ritos religiosos como forma de se aproximar das divindades e obter os pedidos desejados (apresentados a partir do excelente exercício de estranhamento, possibilitado pelo distanciamento natural, feito pelo autor) são alguns pontos abordados por Hamilton, entre as recordações de sua passagem pelos hospitais do Vietnã.

Táticas e atos militares dos Estados Unidos, morte indiscriminada de habitantes das regiões durante os confrontos, o papel dos americanos na derrota de seu país, vinculados à comprometida busca pela informação, levam o leitor a uma ampla compreensão acerca da Guerra do Vietnã, sob o ponto de vista de Hamilton, que experimentou, segundo suas próprias palavras, o amargo gosto da guerra.

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Chão de promessas

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Anda-se, diariamente, ao lado das promessas de vereadores. Espalhadas pela cidade, gritadas por carros, reafirmadas por fogos e jingles clichês. Combinações pensadas para que as canções criem vida própria na cabeça do cidadão. Caminhar por uma rua, no período eleitoral, é se debater com pessoas, pedras, poeira, papéis – oferecendo desde serviços de pais de santo para sorte no amor a palavras de político sobre a possibilidade de um futuro melhor, caso seja eleito. Propagandas quase nunca lidas e descartadas, indiscriminadamente, no asfalto das principais vias.

Os bairros tomados por rostos, números e expressões. Por tentativas de um sorriso simpático ou por olhares sérios para assegurar o compromisso com a população. À frase “porque, no meu mandato…”, segue-se uma enxurrada de ideias, ideologias, críticas ao concorrente, projetos – que, muitas vezes, de antemão, o eleitor compreende a impossibilidade de realização –, mais críticas e novas promessas.

A alguns nomes, são acrescentados cômicos bordões e apelidos para explicar melhor a que vem o proponente: “Candidato da Família”, “Educação é a Solução”, “da Bicicleta”, “do Carro”, “Defensora dos Animais”, “do Povão”, “Gadernal (sic)”, “A hora é agora”, “É Ser Humano”, “Uma Nova Esperança”e “Vai (sic) Dá Zebra”.

O termo “Pastor” antecede o nome de determinados candidatos. Homens e mulheres de todas as idades se misturam em um painel político-religioso banal e, por vezes, conservador ao qual é necessário recorrer para que 359.323 eleitores escolham seus representantes. Entre eles, “Desodorante” também concorre ao cargo. Surgem, também, pedidos de consciência política ao votar. Cuidado ao selecionar o número que teclará nas urnas. Conhecimento sobre propostas.

Mas poucas propostas efetivas são conhecidas. Fala-se em melhorias básicas, como saúde, educação e saneamento. Superficialmente. Vídeos de reuniões veiculam pelas redes sociais, com apoio da sociedade e pedidos de votos. Orações recorrentes a Deus para a conquista da vitória. Fotografias de caminhadas e carreatas.

Em certos momentos, fora do âmbito político, a atuação dos cidadãos soa mais relevante. Diversas pessoas planejam e executam ações para melhorias na cidade. Cultura, meio ambiente e projetos sociais – que sobrevivem mais por amor à causa do que por apoio público, como a ONG Orquestrando a Vida – são preocupações de muitos que optam por permanecer definitivamente distantes da competição eleitoral.

Diante das exigências de consciência política no momento da votação, contraditórias devido à predominância de tantos discursos líquidos e ações isoladas, resta a dúvida sobre a possibilidade de definir com seriedade.

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16

 

A persistência da memória

Obra “A persistência da memória” (1931), de Salvador Dalí

 

Sexta-feira. Duas e quarenta e cinco. O último pedaço de frango escapou mais uma vez do garfo, que o espetou em seguida. Com as mãos brancas, ele levou o alimento à boca e depositou os talheres sobre o prato.

Em 15 minutos, estaria em casa. Expectativas para o final de semana. Levantou-se vagarosamente. Colocou o guardanapo sobre a mesa. Empurrou, com a panturrilha, a cadeira branca de plástico, levemente manchada. Não reparou o homem que havia se posicionado à sua frente.

Ergueu a cabeça para pedir licença e desejar-lhe um bom fim de semana, com seu sorriso torto de malandro.

Respirou.

Abriu a boca.

A cabeça e a arma.

A arma na cabeça.

Suspiro.

Amigo, leve o que quiser, mas não atire.

O barulho do gatilho. Eco do pedido não atendido. O sangue jorrando enquanto a mão furtiva roubava o celular e o dinheiro do almoço. Os olhos parados diante de outros olhos apavorados e questionadores e revoltados pelo homem que havia se transformado em estatística.

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O Brasil que mata

Manhã de quinta-feira. Ou sexta. Quem sabe sábado? Os dias ecoam uma igualdade sem fim. Primeiro, acordar. Depois, forças para levantar da cama e encarar o sol, que, sem seguir as estações do ano, parece pronto para brilhar o ano inteiro. Indiferente aos apelos mais sensíveis. Tudo igual nesta segunda. Terça? Era uma quarta, talvez. Caminhar em direção ao computador para olhar as notícias. Mesmo com o passar do tempo, elas ecoam a mesma igualdade dos dias sem fim.

Mas resta a esperança de encontrar, entre aquelas linhas cuidadosamente elaboradas, fatos que renovem a fé na humanidade. O navegador indica um site de pesquisas. Os dedos tamborilam os nomes dos portais de notícias sobre a cidade. Política, cultura, economia. Mas os olhos, sem que haja consciência sobre os atos, se detêm nos casos policiais. Tradicionais calafrios percorrem o corpo. Embora sejam incômodos, não são mais assustadores. Afinal, essas histórias que se repetem incessantemente fazem parte dos dias que ecoam a mesma igualdade. Sem fim.

A seta do mouse paira sobre o título da matéria. Nele, o jornalista informou que um jovem morreu a tiros. Mas esse rapaz não foi assassinado na semana passada? E o da semana retrasada? Lembrou-se do eterno retorno. “Pensamento elevado, o eterno retorno também é o mais profundo, o mais abissal, pois conduz à visão da eterna repetição sem sentido ou fim de tudo”, lembrou-se de um trecho que leu nos Cadernos Nietzsche, durante uma pesquisa sobre o tema.

Outro homem aparece em destaque por ser suspeito de estupro. A vítima: sua enteada, de cinco anos de idade. “O homem nasce bom, mas a sociedade o corrompe”, disse Rousseau. Questionamentos incontroláveis dominam a mente. Não se pode corromper um indivíduo e levá-lo a atitudes tão desprezíveis se sua índole for boa. Há pouco tempo, casos semelhantes veicularam na mídia. Diversas situações dessa natureza são escritas, lidas e ouvidas diariamente. E o homem, Rousseau? O que é o homem?

Os olhos percorrem o site. Logo adiante, o feriado termina com quatro homicídios. Quatro pessoas mortas em menos de 24 horas. Tiros e facadas. Até o momento, setembro registra, em média, um assassinato por dia na cidade. Prisões e apreensões também preenchem as páginas dos jornais.

Entre os fatos do dia, uma notícia desanuvia a tensão que consome o leitor. Um rapaz, agredido em uma cidade próxima, recebeu alta da Unidade de Terapia Intensiva (UTI) de um hospital estadual. Ele ficou internado por um mês após ser confundido com um assaltante. Depois de discutir com 15 moradores do município, ele foi espancado. Quinze pessoas envolvidas

Quinze homens

E o homem, Rousseau?

 

 

 

“Tem um Brasil que é próspero

Outro não muda

Um Brasil que investe

Outro que suga

Um de sunga

Outro de gravata

Tem um que faz amor

E tem o outro que mata”

 

 

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Esquinas

Imagem: Pixabay

 

Meio da tarde. Os pássaros sobrevoam a Praça São Salvador, rodeada por homens, mulheres e adolescentes que, em seus skates, competem em uma realidade quase paralela. Disputam espaços e atenções dos passantes. Poucos se concentram na cena montada por eles. Passam, assim como passam por outros tantos pés, pernas, braços e mãos carentes. Pedintes. Atravessam a rua e encontram o abrigo da história da cidade, com seus apetrechos e guias orientando o passeio. Mas, do lado de fora, eles optam por sua caminhada.

Nas esquinas, bares, cafés, bancos. Novos rostos. Homens, mulheres. Conversam, riem, contam causos e anedotas. Determinados trechos são dominados por pessoas mais velhas que cavam, na memória, as histórias que podem ser partilhadas. As outras permanecem silenciadas, escondidas por trás de olhos que ainda buscam novas experiências. A curiosidade é rapidamente atraída pelos transeuntes, mas logo é desviada por outro chamado para um papo na Rua do Homem em Pé.

A poucos metros dali, uma menina está parada ao lado da saída de um banco. Em sua mão, um pacote de mariolas. Custam centavos. A timidez na abordagem desfavorece a venda do produto. Aproximadamente dez anos. O rosto de criança carrega uma expressão adulta. Cansaço. As pessoas circulam com pressa e nem a olham. Para ser vista, ela entra no local. Aproxima-se. Oferece. Após a recusa, volta ao ponto de origem. Até a hora de ir para casa, continuará à espera de clientes que contribuam com seu trabalho.

Imediatamente, outra criança vaga pelo calçadão, em um tempo passado. Tal como a menina de anos depois, o garoto, mais novo, anda entre os adultos. Mas as mãos estão vazias. Ele procura, entre os que não o notam, alguém disposto a ajudá-lo. No desespero, apela:

– Você pode me dar dez reais? É melhor pedir do que roubar – diz a uma então menina. Em um futuro próximo, a frase continua a ecoar.

Em um sonho, em outra esquina, a moça ainda vê aquele rosto. O menino pequeno, sem identidade, é agora adulto. Como ela. Eles conversam. Ao agora rapaz, é dado um dinheiro para um sorvete. Um homem entrega o presente. Agradecido, aceita. Com carinho, sorri em retribuição.

Conversam, novamente, menina-moça e menino-rapaz. Eles sorriem e se entendem. Trocam abraços. Tornam-se amigos. Na despedida, ele estende a mão e lhe entrega o dinheiro, para devolver ao homem, e um bilhete.

“Não é só disso que precisamos. Busco outra coisa. Quando sigo por essas ruas, tenho diferentes desejos. Menina, o mundo nos dá aquilo que queremos. Só às vezes. Ambicioso, procuro sorrisos, afetos e abraços. Mas nem todos me enxergam. Então, te pergunto, a quem posso pedi-los?”

Ela o encara. A menina se transfigura no menino. A moça, no rapaz. “A quem posso pedi-los?” Ela mexe a cabeça, em negação. Não sabe a resposta. Ele concorda. E, sorrindo, sabiamente, parte em sua caminhada. Mais uma vez.

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Candidatos apresentam propostas para a área cultural

Entre terça-feira (30) e domingo (4), os candidatos à Prefeitura de Campos foram entrevistados pela equipe da Folha Fois, caderno de cultura da Folha da Manhã, e apresentaram suas propostas para a área. Temas como o aproveitamento do Centro de Eventos Populares Osório Peixoto (Cepop), a reabertura do Teatro de Bolso Procópio Ferreira, a democratização do Teatro Municipal Trianon, o Campos Folia e o investimento na literatura e no cinema foram abordados durante as entrevistas com Caio Vianna (PDT), Dr. Chicão (PR), Geraldo Pudim (PMDB), Nildo Cardoso (DEM), Rogério Matoso (PPL) e Rafael Diniz (PPS),

Confira, abaixo, os projetos dos concorrentes para a área cultural:

 

Caio

Foto: Rodrigo Silveira/ Folha da Manhã

Caio Vianna: “O Cepop precisa justificar seu investimento. Precisamos colocar em discussão sua utilização o ano inteiro. Não podemos nos dar o luxo de utilizá-lo apenas em uma Bienal do Livro, Carnaval e mais algum outro evento por ano. Sua manutenção é cara e temos várias prioridades. Para isso, uma comissão composta por Fundação Cultural Jornalista Oswaldo Lima (FCJOL), Conselho Municipal da Cultura e Conselho de Preservação do Patrimônio Histórico se reunirá para apresentar uma proposta de viabilidade do Cepop em 90 dias.”

Leia (aqui) na íntegra.

 

chicão

Foto: Michelle Richa/ Folha da Manhã

Dr. Chicão: “Apesar da crise, temos sim mantido uma política de promoção e desenvolvimento cultural como jamais foi implementado em Campos. Claro que na medida em que houver recuperação de receita no município, vamos incrementar o Programa de Valorização da ‘prata da casa’, e estaremos ampliando as publicações de obras dos nossos autores.

Leia (aqui) na íntegra.

 

pudim

Foto: Michelle Richa/ Folha da Manhã

Geraldo Pudim: “Campos guarda consigo muitas tradições. É uma cidade histórica. O carnaval não pode continuar sendo tratado da maneira como está. Vou debater com a sociedade civil organizada e instituições carnavalescas sobre o melhor período para a realização do carnaval de Campos. Por outro lado, penso que cada vez mais temos que investir também na profissionalização do carnaval de Campos, promovendo cursos para as escolas de samba, fazendo intercâmbio com profissionais do carnaval carioca, por exemplo. Outro aspecto é a capacitação em projetos de maneira que nossos produtores do carnaval possam captar recursos não só via Prefeitura, mas através da iniciativa privada.”

Leia (aqui) na íntegra.

 

Nildo

Foto: Michelle Richa/ Folha da Manhã

Nildo Cardoso: “Temos propostas para a melhor utilização do espaço e maior divulgação das exposições. O Museu Histórico de Campos poderia receber eventos culturais de nível nacional, levando nossa cultura para todo o estado do Rio Janeiro. Hoje, o espaço é subutilizado, quando poderia, por exemplo, estar sendo utilizado por instituições de ensino do nosso município, como o Instituto Federal Fluminense, que oferta o curso de Licenciatura e Teatro e promove dezenas de eventos culturais.”

Leia (aqui) na íntegra.

 

Rafael

Foto: Michelle Richa/ Folha da Manhã

Rafael Diniz: “No início deste ano, em apenas dois meses, o governo Rosinha gastou cerca de R$ 170 mil com fogos de artifício. Nesta mesma época, o Teatro de Bolso estava fechado, e o conserto do sistema de ar condicionado não ficaria por mais de R$ 150 mil. Ou seja, o que faltou até agora não foi dinheiro, mas vontade de devolver o Teatro de Bolso aos artistas da nossa terra. Assumo o compromisso de reabrir e devolver o Teatro de Boldo aos artistas locais. Trata-se de um palco importante, que também irá abrigar as nossas oficinas de teatro, entre outros cursos.”

Leia (aqui) na íntegra.

 

Rogério

Foto: Rodrigo Silveira/ Folha da Manhã

Rogério Matoso: “Em relação ao Teatro Trianon, ele tem que ser mais acessível ao campista. É um dos maiores e melhores teatros do país, mas não é justo levar para o local somente peças de fora a custos absurdos. Nosso povo tem que usar esse espaço. Tem muito campista que sequer conhece o interior do Trianon. Temos vários artistas que poucas vezes se apresentaram no espaço ou nunca se apresentaram. Podemos fazer eventos, reunindo música, poesia e teatro dentro do Trianon, com entrada gratuita. Essas ações valorizam nossos artistas e engrandecem a cultura do nosso povo.”

Leia (aqui) na íntegra.

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Um nome, um verbo

O atual presidente do Brasil, Michel Temer (foto: UOL)

O atual presidente do Brasil, Michel Temer (foto: UOL)

 

Vozes, histórias, opiniões em todos os cantos. Por trechos de ruas, o barulho de ansiedade demonstra o medo do momento. Balbúrdias. As pessoas caminham como se não soubessem exatamente para onde seguem. Nas mesas dos bares, em que assuntos como futebol, carros, relacionamentos e, por vezes, religião dominavam os bate-bocas, há notável mudança. Homens e mulheres, de todas as idades, conversam, concordam e discordam sobre o que está sendo feito de nós, sem que precisemos dormir como pedra.

A cada dia que passa, os noticiários despejam sobre leitores, ouvintes e telespectadores mais e mais fatos relacionados ao novo momento político pelo qual passa o Brasil após a saída de Dilma Rousseff e a consequente posse de Michel Temer: possibilidades relacionadas ao fim do sistema de ensino gratuito, mudanças nas leis trabalhistas, na Previdência Social e nos programas sociais. Até o papa Francisco demonstrou preocupação com o atual momento do Brasil, caracterizando-o como triste.

Os efeitos começam a ser sentidos pela população. No bar, o garçom atende, educadamente, os clientes que ocupam uma parte do espaço quase no final do expediente de um sábado à noite. Cansado, o homem oferece o cardápio, anota atenciosamente os pedidos e vaga pelo espaço à procura de novas mesas que ainda não foram atendidas.

No final da noite, ele é novamente chamado. Desta vez, para trazer a conta. O valor, dividido entre os três presentes, não foi o mais absurdo. Mesmo assim, entre comentários, eles brincam:

– Para você, deu só R$ 2.100. Barato – diverte-se o garçom.

– Não faça isso. Nem brinque. Não tenho nem condições de pagar isso, moço – respondeu uma das clientes.

– Ah, mas não se preocupe. Tem um monte de pratos ali que precisam ser lavados – e todos riram antes de um pedido de desculpas verdadeiramente envergonhado.

Após o pagamento, o garçom compartilha um pouco de sua vida com os amigos: ele está fora de sua área de origem – Segurança do Trabalho – há meses e tem trabalhado na função para poder custear as despesas.

– As contas não param de chegar. Esses dias, de manhã, chegou o rapaz dos Correios com elas. E a gente tem que pagar. Estou há mais de seis semanas sem saber o que é descanso. Trabalho como garçom nos finais de semana e estou começando um estacionamento no Centro, mas está fraco – contou.

O homem, cujo nome não foi citado, é o retrato do Brasil atual; do medo das mudanças e da instabilidade; da necessidade de buscar outros meios de sustentação e manter em dia todas as contas; da falta de oportunidades, mesmo para aqueles que conseguiram diploma – papel que, antes, dava certa garantia a quem o tinha –; do não saber se amanhã será um novo dia.

 

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