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Folha Dois

Crítica de cinema — Snowden: herói ou traidor

Cinematógrafo 
Edgar Vianna de Andrade

Snowden: herói ou traidor - Antes de comentar o filme, examinemos o quadro político atual. Controle do Estado sobre as pessoas sempre existiu, mas ele, o controle, era exercido por poucos sobre poucos e com instrumentos rudimentares. Não faz muito tempo, durante e após a Segunda Guerra Mundial, os serviços de inteligência eram praticados por poucos agentes sobre pessoas especiais (governantes, diplomatas, agentes inimigos e espiões) com métodos arcaicos, o que gerava vultosa papelada. Não sem razão, um historiador disse que, para estudar a Segunda Guerra, seria necessária inicialmente uma motocicleta para percorrer os muitos quilômetros de documentos produzidos.

Depois da revolução da informática, o especialista em computação passou a ser um espião nada romântico, em sua sala, com aparelhos a sua volta. Os espionados são teoricamente todos os habitantes do planeta. Eles facilitaram a tarefa dos espiões com o uso de celulares e computadores. Os países poderosos do mundo, como Estados Unidos, Rússia e China controlam as pessoas à distância. Claro que a maior parte das informações não interessa aos cyber espiões, mas, para saber se apresentam interesse, é preciso espionar todo mundo.

Esse é o sistema atual, que mudou o perfil do espião hitchcockiano. Hoje, ele é uma pessoa com aparência comum, que pode estar a seu lado, usando calça jeans e mochila. Para trabalhar nos serviços de espionagem, é preciso inteligência, rapidez, treinamento e nervos de aço. Um cyber espião pode fornecer informações que permitam ao militar praticar uma espécie de videogame e exterminar pessoas à distância, de forma “limpa”, ou ao empresário fiscalizar ações nas bolsas de valores ou ainda permitir que um país se mantenha na vanguarda.

Há, porém, dois problemas. Quanto maior a complexidade para obter êxito, maior o risco de falhas do sistema. Operadores do sistema podem sofrer desgastes nervosos e emocionais, terem crises morais ou se aproveitarem dele. Do lado de fora, há os que conseguem burlar as defesas do sistema, como os hackers, os contraespiões, os terroristas. Estes últimos foram os principais responsáveis pela construção de sistemas de espionagem e ao mesmo tempo seus burladores.

A história de Edward Snowden exemplifica o caso de um nerd conservador, com grandes aptidões para a informática que, por motivos éticos e de estresse, represente falhas no sistema. Ele acredita que Barak Obama, ao se eleger presidente dos Estados Unidos, cumpriria a constituição do país quanto aos direitos básicos do indivíduo e se decepciona. Se a orientação de Snowden foi essa, como mostra agora, num ótimo filme, o cineasta Oliver Stone, tanto ele quanto o diretor guardam uma crença insustentável nos dias correntes.

O personagem de Corbin O’Brien, com soberbo desempenho de Rhys Ifans, demonstrou pausadamente ao sonhador Snowden, representado por Joseph Gordon-Levitt, que o cidadão médio deseja mais segurança que liberdade. Direitos fundamentais do indivíduo é algo démodé. Os regimes constitucionais usam constituições como justificativa para defenderem seus interesses.

Contudo, o drama de Snowden foi muito bem enfocado por Stone. A direção é segura e conduz o espectador heroificar o espião, a valorizar suas razões, a exaltar sua vida amorosa com Lindsay Mills (Shailene Woodlev), a mostrar sua capacidade espetacular de burlar toda a vigilância do sistema. Ele contou com colegas também descontentes, mas incapazes de desafiar as forças de espionagem. Os cortes e os planos-sequência mostram que a edição foi primorosa tanto quanto a fotografia, a sobriedade em conduzir o filme e o próprio roteiro, também de Stone. Nele, Nicolas Cage faz uma ponta. O ator envelheceu, está gordo e não poderia mais representar o papel do Motoqueiro Fantasma.

10/01/2017 11:00
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