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Folha Dois

Folha 39 anos — Guilherme Belido escreve

Guilherme Belido
Foto: Reprodução

Duas ou três palavras — Debruçado sobre a tela branca do computador, infernal substituta do papel também branco do cilindro da máquina de escrever e com quem ‘briguei’, acho, até meados dos anos 90, fico a me perguntar o que poderia dizer de Aluysio Barbosa além do que já disseram tantos outros e tão melhores jornalistas que eu. Respondo: nada.

Então, fujo do que certamente cairia no terreno da repetição, para lembrar passagem que revela um pouco mais do jornalista que gostava de ser chamado de repórter – já aí indicando indelével marca dos que verdadeiramente são, sabem e fazem... e por isso não precisam de títulos, confetes de bajuladores e tampouco holofotes.

Estava a lembrar o seguinte: algumas vezes – a primeira delas, acho, numa visita quando se recuperava de cirurgia – sugeri que escrevesse um livro sobre a Imprensa de Campos, com olhar livre, daquilo que lhe parecesse mais interessante. (O mesmo que já havia falado com Vivaldo Belido, que simplesmente não quis. Já tinha deixado jornal e preferiu escrever livro sobre Política).

E voltei a insistir uma, duas vezes... Aluysio não dizia sim, nem não... naquela velha máxima que define o diplomata: quando diz sim, quer dizer talvez; quando diz talvez, quer dizer não; e quando diz não significa que não é diplomata.

E seguia eu insistindo... Até que certa feita disse-me que seria trabalhoso... Que não estava com disposição... e coisa e tal.

Em outro ‘aperto’, apelei para o “Depoimento”, de Carlos Lacerda (ele admirava muito Lacerda, matava aula no Rio para assistir os discursos inflamados do líder da UDN, um dos maiores oradores do País), lembrando que fôra fruto de uma reunião de 4 ou 5 jornalistas do Estadão, que durante vários fins de semana ouviram o ex-governador da Guanabara, logo em seguida dando origem à volumosa e reveladora obra sobre o jornalismo e a política no Brasil, editado pela Nova Fronteira. E... enfim, que ele poderia fazer a mesma coisa.

Foi aí que disse, em outras palavras, que apesar da ideia ser boa, ele teria que narrar fatos que poderiam gerar algum desconforto para terceiros, ou cometer omissões. E que via inconveniência em ambas as alternativas.

Foi quando entendi o gesto nobre em duas frentes: na primeira, a generosidade, a brandura de quem não se sentiria bem de, por menor que fosse, trazer dor-de-cabeça para outrem. A segunda, o jornalista – o repórter – que não se permitia alterar fatos ou descrevê-los de maneira incompleta. Em ambas, a marca da fina sensibilidade.

Jornalista com alta capacidade de síntese, perspicaz, dono de um texto refinado, não usava 11 para o que podia ser escrito com 10 linhas.

Exibia, ainda, rara noção de dose e medida, sendo avesso a excessos, ao texto ofensivo, agressivo ou odioso. Ao contrário, mesmo na crítica, por mais dura que fosse, batia como quem olha de cima – porque sabia que esta, sim, era a que mais e melhor atingia.

Tinha clara noção de que o texto chulo e rasteiro se perdia em si mesmo, e que na troca de banalização acabava por não surtir efeito algum.

Colocava no papel, como poucos, o conceito que vinha lá de trás, salvo engano, de Irineu Marinho: o silêncio pode ser ensurdecedor. Se você fala baixinho, todos param para ouvir; se grita, todos gritam junto.

Diria, ainda, Aluysio Barbosa democratizou a redação (penso que por influência de sua passagem pelo JB), tornando-a menos representativa do entendimento unilateral do proprietário do veículo, e mais daquilo que era possível extrair como consenso entre os profissionais do jornalismo – para os quais sempre foi muito mais companheiro do que patrão. Isso, acredito, também, entra no leque de inovações.

Nesta página que fecha o caderno de aniversário da Folha, estou certo de não ter feito elogios gratuitos, mas sim de reconhecimento. Se fosse, por exemplo, falar de meu pai – o que seria suspeito – também discorreria textos volumosos, a descrever seus feitos de jornalista combativo, que dispensava verba da prefeitura, pioneiro em dotar a imprensa local de rotativa, de sede própria construída para jornal, de laboratório fotográfico e até de coisas simples, como carro de reportagem. De lançar edição noturna, seção de classificados e abrir sucursais em municípios vizinhos. De criar departamento industrial para feitura de jornais de fora. De não usar o jornal para ‘arranjar’ emprego público – tal qual também Aluysio – e de construir patrimônio apenas com os frutos do jornal.

Bem, mas não é o caso. Aqui se fala da Folha e de Aluysio. Fiz a ressalva para deixar claro que, nas observações feitas nas páginas anteriores e, em particular, nesta, há muito mais informação do que opinião.

Encerro reproduzindo o último parágrafo de matéria publicada da página 03: Não enfatizar a determinação e o feito de Aluysio para que a Folha virasse realidade, colocando na rua o jornal que um dia idealizou, depois ditou parâmetros e dirigiu, seria não descrever a grande aventura e negar ao fato histórico seu valor inestimável.

Veja a versão impressa aqui

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08/01/2017 08:00
1 comentário para Folha 39 anos — Guilherme Belido escreve
Aluysio Abreu Barbosa
09/01/2017 - 16h34

Parabéns pelo texto, Belido! Aluysio, o Bom, teria gostado. Abç!

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